Centenário de Cartier-Bresson

Au Bord de la Marne, 1938 - Henri Cartier-Bresson

Au Bord de la Marne, 1938 - Henri Cartier-Bresson

O Museu de Arte Moderna de Paris e a Maison Européenne de la Photographie, também na capital francesa, estão consagrando uma exposição em homenagem aos cem anos de nascimento de Henri Cartier-Bresson. Embora seu legado seja questionado por diversos autores contemporâneos, ele é, sem dúvida, o mais conhecido e comentado fotógrafo de todo o século XX. Acredito que isso se deva ao fato de que Cartier-Bresson não deixou apenas uma obra fotográfica, mas também uma obra filosófica, que se liga de maneira inextrincável à sua produção imagética. Quem não conhece o termo “instante decisivo”? Quem nunca definiu a fotografia como a arte do instante decisivo?

Cartier-Bresson foi dos primeiros a reconhecer as potencialidades dos aparelhos fotográficos de pequeno formato, surgidos na década de 1920. Na época, fotografia profissional era sinônimo de grande formato, câmeras pesadas e grandes chapas de vidro.  Ao lado de outros, como Robert Capa, Alexander Rodchenko e Laszlo Moholy-Nagi, Cartier-Bresson passou a adotar a pequenina Leica, alimentada com rolos de filme de 35 mm, em suas andanças pelo mundo. Assim, conseguiu captar e flagrar cenas de enorme espontaneidade, descobrindo como uma imagem podia se tornar poderosa justamente por ser captada em um instante, de uma só vez, no fluxo inexorável dos acontecimentos cotidianos.  Ao combinar o instantâneo fotográfico com uma filosofia do instante decisivo, Cartier-Bresson abriu um enorme continente para a fotografia no universo das artes, que seria seguido muitos outros. Iniciado na pintura, ele abandonou a produção pictórica para abraçar a fotografia justamente quando descobriu como esta poderia ser mais instintiva, leve e comprometida com o mundo, com as pessoas, personagens de sua incansável busca.

Rue Mouffetard, Henri Cartier-Bresson, 1954

Rue Mouffetard, Henri Cartier-Bresson, 1954

A exposição aberta no MAM de Paris não contempla alguns instantâneos célebres, como a do homem que curiosamente salta sobre uma poça d’água “flagrado” na Gare de Saint Lazare. Muito já se discutiu sobre o fato de essa imagem ter sido ou não montada, já que Cartier-Bresson se opunha frontalmente às fotografias produzidas. O debate é tão infértil como o que existe sobre a fotografia que Robert Capa tirou do soldado alvejado durante a Guerra Civil Espanhola, no exato momento em que caía morto no campo de batalha. Por ser um extrato ínfimo de tempo, a fotografia nunca deve ser tomada como prova de um acontecimento. Ela mostra apenas um instante, não consegue nos dizer nada sobre o que veio antes ou depois. Quem se arrisca e esse tipo de dedução peca inevitavelmente pela ingenuidade. O melhor é saber extrair todo o potencial do instante, sem se preocupar se o que ele mostra é uma verdade flagrada ou construída.

Gare de Saint Lazare, 1932 - Henri Cartier-Bresson

Gare de Saint Lazare, 1932 - Henri Cartier-Bresson

O centenário de Cartier-Bresson é comemorado em meio a grandes questionamentos sobre a validade dos preceiros do “instante decisivo”, vindos tanto de fotógrafos engajados na arte contemporânea, que usam e abusam de instantes construídos, da compartimentação, da serialização, do uso de narrativas e do alongamento dos tempos de tomada, como de fotógrafos engajados em um novo documentarismo, comprometido com a denúncia de injustiças sociais e a revelação de histórias de vida. Mesmo assim, sempre é tempo de celebrar uma obra que teve enorme relevância para a história da fotografia, sem a qual não seria possível dar outros passos além.

2 Comentários

  1. Pascal disse:

    confira este site bem interessante e legal
    apoia artistas…

    confira o site http://www.wix.com/psclrgr/artiste2010por

    obrigado

  2. Nadia disse:

    Adoro a naturalidade das imagens construidas por este mestre da fotografia… simples, documental, inspirador e maravilhoso.

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